A Viagen da Memória

Kátia Canton

Ele é um viajante que percorre rios e florestas em busca da memória íntima que, no caminho, se torna universal.

Para o artista Bob Nugent, o mundo se materializa nas nuances da pintura. E para seguir sua viagem de sentidos e estabelecer um encontro interior, sincero e inusitado, ele atenta a cada detalhe das paisagens externas. É nesse movimento de confrontos que brota a força de seu trabalho.

O californiano Nugent escolheu a Amazônia brasileira como cenário de suas viagens de olhar e sensação. Desde 1984, somando mais de dez viagens, tornou-se peregrino da bacia amazônica, observando com espanto, vislumbre e curiosidade as matérias de que são feitos seus sonhos e realidades, então manipulando suas cores, sombras, massas e contornos, que se tornam finalmente um grande espelho da memória.

Nesse percurso, a ação flutuante da memória, como um rio, transborda a lembrança de objetos, tonalidades, formas de animais, plantas, conchas. No fluxo de impressões, carimbadas sobre a tela ou sobre o papel, as camadas de tinta se encorpam gerando palimpsestos, as cores se sobrepõem, a memória se organiza em uma miríade de pequenos registros que se somam incessantemente.

Figura e fundo se mesclam. Imagens e tons ganham poder e movimento e agarram o observador que, já seduzido pelas cores e formas, torna-se inevitavelmente cúmplice do artista em sua viagem de sentidos. Trata-se de uma viagem que se desdobra em múltiplas vias.

A Via dos Tempos – na evocação de imagens, resquícios da memória, registrados em um pequeno caderno de viagens, o artista embaralha tempos. Um ninho de pássaros, uma fruta, uma flor e uma visão do rio ao amanhecer–esse pequeno e íntimo diário de registros junta páginas diversas para tomar corpo numa única obra, mistura sedimentos da memória para criar um novo tempo. É o tempo do artista-viajante, que despreza cronologias e abraça, numa mesma e generosa ação, o percurso intrincado do jogo entre passados e presentes. Todas as viagens e visões da Amazônia tornam-se então uma única e idiossincrática via que não obedece senão ao tempo interior do artista.

A Via das Formas – no percurso que separa figura e abstração existe o meio do caminho. É um lugar onde as massas de cor tomam corpo e se intercalam com linhas orgânicas, traços fluídos e protuberâncias, que a todo tempo se referem às coisas do mundo. O artista-viajante tem licenças poéticas formais. Refere-se em seus títulos a uma narrativa pessoal, oblíqua, que corresponde plasticamente a um labirinto mais ou menos decifrável de formas. Assim, a obra Sentinela alude a um tronco de árvore, que emblematiza a idéia de um corpo só na imensidão da floresta. Ninhos contém imagens fragmentadas de formas-receptáculos, como uma colméia de abelhas, uma fruta do conde, uma concha.

As formas de Bob Nugent se multiplicam na fatura de suas pinturas. O artista mistura tinta a óleo ou aquarelas, sobre tela ou papel, respectivamente, com guaches, nanquins, carvão, gravuras em metal e litogravura. 

Gravuras são recobertas de tinta e eventualmente areia. Tintas podem ser aplicadas com palitos ou espátulas, que o artista prefere pela maior dificuldade que apresentam para controlar o traço da cor.

Nugent trabalha de várias formas simultaneamente. Trabalhos são interrompidos e outros ensinam a resolver questões relativas àqueles que, deixados de lado, são então retomados e terminados. A cada obra, o artista-viajante passeia por uma nova ciranda de formas.

A Via das Cores – para Nugent, as cores da Amazônia são sempre escuras. O cenário cheio de árvores é constantemente recheado de sombra. Eis que na força dessa lembrança o artista criou uma poderosa constelação de tons como o rosa queimado, o sépia, o azul acizentado, o verde musgo, os ocres. A memória da Amazônia tem também cores verde-amarelas mas a penetração dos raios de sol entre as árvores faz surgir a essa bandeira paletas vermelhas, rosas, marrons.

Para o artista-viajante, esse caldo de cores torna-se um cardápio de experiências sensoriais. Tal como o artista russo Wassily Kandinsky, Nugent vê nas cores uma capacidade sinestésica, uma correspondência espiritual, mítica, que leva o artista e o espectador para universos emocionais específicos.

Pois esse percursos pelas vias dos tempos, das formas e das cores desembocam em uma nova mitologia. Trata-se de uma mitologia em que os deuses são animais, plantas, rios e terras. Povoando um Olimpo pessoal, as imagens do artista viajam pelas árvores frondosas da floresta e pouco a pouco penetram a alma intrigada do espectador tornado cúmplice.

Katia Canton é docente e curadora
do Museu de Arte Contemporânea
da Universidade de São Paulo.

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