Quatro décadas de modernidade


Elvira Vernaschi

Antônio Gomide, em seus cerca de 50 anos de arte, produziu intensa e apaixonadamente uma obra que marca a modernidade da arte brasileira. Não houve quase nenhuma técnica em que não se expressasse. Desde pintura, desenho, gravura, aquarela e escultura, a murais, esculturas, jato de areia, vitrais e peças de decoração interna - que ele próprio executava. Seu aprendizado europeu, por primeiro em Genebra, logo em Toulouse, mas, e, principalmente , em Paris, o conduz durante a vida inteira para uma composição primorosa e para o rigor técnico.

Sua obra, no entanto, apareceu esporadicamente, "o impossível omitido", segundo Walter Zanini (1968). Poucas e raras exposições de monta ele realizou ou foram realizadas em sua homenagem

A primeira a se realizar no Brasil, inclusive de caráter retrospectivo, em São Paulo, em 1926/27, foi muito bem recebida pelo meio artístico-cultural da cidade. Isto e o fato de toda a família ter retornado ao país, em 1919, o fariam decidir a voltar, definitivamente, em meados de 1929.

Esta mostra, bem como duas outras mais, uma das quais na Galeria Blanchon (em meados do mesmo ano), mereceu elogiosa crítica de Menotti del Picchia, Carlos Pinto Alves e Mário de Andrade. Este último ressaltava, por ocasião desses eventos, seu aprendizado europeu e a convivência com o meio cultural parisiense - ele freqüentou os ateliers de Braque, Picasso, Lhote, Picabia e Severini; conheceu, ainda em Genebra, Rubem Borba de Morais e o cineasta Alberto Cavalcanti, conviveu com alguns dos artistas brasileiros que passaram por Paris. A análise de Mário de Andrade recai, entre outras características, sobre a qualidade e rigor do procedimento do artista, no que toca à composição analisando a qualidade da linha "grande imóvel que é da essência da plástica no plano e o primeiro segredo do seu dinamismo Gomide a inventa e mostra magnificamente. A linha dele é cheia e completa (...), ela conserva uma leveza, uma liberdade (...)".

Quarenta anos depois, com algumas exposições realizadas, essencialmente na década de 30 - dos Salões de Maio, ao Salão da Feira Nacional da Indústria e ao Salão do Sindicato dos Artistas Plásticos, a maioria mostras coletivas; e importantes participações na vida cultural paulistana - um dos fundadores do CAM (Clube dos Artistas Modernos), da SPAM

(Sociedade Pró Arte Moderna); e, do Clubinho, já na década de 50, o Museu de Arte Contemporânea/USP, organizou em agosto de 1968, em caráter de homenagem, a segunda grande retrospectiva do artista, com pesquisa e crítica de Walter Zanini, então seu diretor. Um ano se passara de sua morte.

Na análise, Zanini ressalta algumas características importantes na obra de Gomide, entre elas o período parisiense de influência cubista e seus desdobramentos, a figuração derivada da primeira renascença e a fase brasileira, com pesquisas de uma figuração naturista. "Se podemos registrar certa dispersão e inconstância nos objetivos de Gomide, forçoso é reconhecer as virtudes que dominam sua obra, do ponto de vista estilístico e psicológico, que a investem de um clima peculiar inconfundível e que na sua hora souberam trazer uma contribuição vital ao nosso desenvolvimento artístico".

Passados outros cerca de 30 anos, Peter Cohn, em boa hora, decide realizar esta exposição, com caráter de mini-retrospectiva. Neste intervalo de tempo não se realizou mostras das obras de Antônio Gomide, de grande relevância, a exceção de duas, com aspectos direcionados. Uma realizada por Emanoel Araujo, na Pinacoteca do Estado (Antonio Gomide, Entre Duas Guerras e a Revolução de 32), em setembro de 1992, com foco na produção de aquarelas deste período e em comemoração a Revolução Constitucionalista, na qual Gomide tomou parte e da qual fez registros preciosos e humorísticos. Outra organizada por Lisbeth Rebollo Gonçalves, no Museu de Arte Contemporânea/USP (Modernismo Paris Anos 20, Vivências e Convivências), em junho de 1995 , privilegiando a produção contemporânea de três artistas do art decô, através da pesquisa elaborada por especialistas da Universidade. Os outros dois, Vicente do Rego Monteiro (Elza Ajzenberg) e Victor Brecheret (Daisy Peccinini de Alvarado).

Todos nós teremos, novamente, a oportunidade, agora, de rever e usufruir de algumas das obras que pontuaram seu fazer artístico, a começar pelo art decô e chegando até meados da década de 60, passando por estudos de vitrais, os murais; as marinhas e o nu feminino, de que ele gostava tanto.

Os Anos 20

Dos anos vividos em Paris (quase dez), estão na mostra obras preciosas do art decô. São estudos em aquarela para estamparias de casas francesas, como a Tissus Rodier e La Maitrisse, e algumas composições com figuras femininas e uns poucos cenários.

Da primeira fase do art decô são duas pequenas aquarelas de linhas goemétricas que ressaltam a simplificação das formas, definidas através de cores blocadas, acompanhando proposta da tendência artística cuja característica era o afastar-se do rebuscamento do art nouveau, privilegiando uma composição mais rígida e utilização de materiais que evidenciassem o caráter funcional da obra.

Da segunda fase do art decô, com total mudança de caráter estético, são as aquarelas, na sua maioria, de figuras femininas, flores ou aves, com delicado e sinuoso tracejamento, mas dentro de um rigor primoroso, onde a linha é a construção mais evidente, que a utilização de cores suaves ressalta, como nas figuras femininas languidamente alongadas, ou na de um casal enlaçado, de figuras femininas com cactos ou com cântaros; e uma singela aquarela de extrema delicadeza de linhas e cores, onde o artista registra magnificamente as formas majestosas de garças. A aquarela Foire aux Croute, estudo para cenário nos remete para sua vivência de Paris, na segunda metade dos anos 20.

De sua passagem rápida por São Paulo, naquele final de 1926 e até começo de 1928, quando conheceu e conviveu com os 'moços modernistas', muito que foi recomendado por Victor Brecheret, seu amigo e vizinho de atelier em Paris, é a pintura "Favela", resultado do impacto causado por seu contato com a terra e os modernistas. Neste primeiro instante as cenas procuram ser representativas do que ele capta como sendo a 'brasilidade', entre as quais estão as composições com índios. Nessas pinturas ressalta o exotismo através de cores terra, fortes, com aproximações a um Paul Gauguin, na fase taitiana, cuja construção formal é, como sempre, rigorosa.

Os Anos 30

Ao se fixar definitivamente em São Paulo, em 1929, conta com o apoio do grupo de artistas e intelectuais que persistem na luta pela mudança e atualização do Brasil, no campo das manifestações culturais. Sua produção destes anos, com continuação das lições européias, é, basicamente, voltada para os murais, vitrais e decoração de interior - campo aberto por sua irmã Regina Gomide Graz e seu cunhado John Graz. É importante frisar que os três são, nessa década, os grandes introdutores e mestres do art decô, com projetos de móveis, tapetes, vasos e abajures.

Dos muitos murais que executa, com temática religiosa e profana, de seu aprendizado com o muralista Marcel Lenoir, em Toulouse, com aproximações à 'primeira renascença' e outros com aproximações ao cubismo e ao art decô, está presente na exposição um estudo aquarelado executado para o bar da residência de Frederico de Souza Queiroz, no Jardim Europa. Não se tem notícias se o mural conseguiu sobreviver.

Detalhista ao extremo, Gomide muitas das vezes executa ele mesmo os objetos de decoração, inclusive os vitrais que desenha para a firma de Conrado Sorgenicht, os murais, os jato de areia (ver o conjunto do Mosteiro de São Bento, executado na década de 50) , ou peças de decoração ( vasos, mesas, abajures ), produzidas nos anos 30 e 40.

Dos projetos para vitrais estão um desenho e outros estudos, inclusive para os do Portão do Parque Água Branca, onde o artista ressalta a figura do índio, do caçador, em linhas esquemáticas e de um colorido forte.

Das pinturas que pressupõem murais, merece destaque a "Paisagem Urbana", com fachadas geométricas, mulheres e o condutor de burros-cargueiros, com aproximações ao cubismo europeu, por sua estilização de formas e a predominância das cores fortes e terrosas características dos murais, com pontuações de verdes, azuis e cinzas.

Os Anos 40

Os meados dos anos 40 e princípios dos 50 estão representados, entre outras obras, por uma pintura que chamaria de "O Retorno do Mar", tema pelo qual foi um eterno apaixonado e que já é detectado em obras parisienses. Por suas dimensões e agigantamento, a obra apresenta características de um mural. No rigor da composição observamos alguns resquícios do cubismo, mas com características de integralidade brasileira, por seu colorido, pelo 'arredondamento' das formas das figuras e a própria estrutura formal da obra, incluindo o barco, em primeiro plano. É pintura de muita força. O grupo de mulheres que aguardam os pescadores, por suas formas, prenuncia as figuras femininas (nus, mulheres dançando) da década posterior.

Marinhas ele as produziu muitas, desde o início de seu aprendizado e até o final de sua vida. Na década de 60 passou a viver em Ubatuba, no início de sua cegueira, o que não o impediu de nadar. Exemplo são este "Pescadores de Ubatuba", de cores mais suaves, ou "Mar Revolto", com cores e pinceladas mais livres e de muita plasticidade.

Nessa década Gomide inicia sua incontável retratação de mulheres, principalmente nus e cenas de mulheres dançando.

Os Anos 50/60

Nesta década e até meados dos anos 60, Gomide se dedicou a pintar paisagens-marinhas, nus femininos, mulheres dançando e cenas de dança de origem afro.

Seus nus são sempre muito sensuais e às vezes despojados, em sua estrutura formal, com uma composição rítmica, com linhas e formas definidas e cores às vezes suaves, às vezes marcantes. Em o "Nu em Amarelo" somente a forma, enquanto estrutura, é o que interessa. As cores são blocadas e definidas, sobre um segundo plano inteiramente abstrato. O nu está languidamente recostado em panejamento branco, o que ressalta a forma feminina.

Suas cenas de dança são, em contraposição, cheias de dinamismo, com linhas executadas através das cores e das formas figurativas que caracterizam a mulher brasileira, principalmente as de origem africana. A sensualidade prevalece. A pesquisa se direciona para as danças, essencialmente, as de caráter popular e tinham como referência as festas que aconteciam em seu atelier, para as quais convidava as mais variadas pessoas e, enquanto todos se divertiam e as mulheres dançavam, ele executava os esboços. A partir daí desenvolve temas sobre a religião afro, onde tenta captar o caráter de religiosidade do nosso povo e onde o ritmo é muito mais exacerbado. Em "Oferenda", três mulheres dançam freneticamente, enquanto uma quarta faz a 'oferenda'. A forma quase perde sua função em proveito do ritmo. Um fundo abstrato e a utilização de cores primárias e contrastantes acentuam o dinamismo da composição.

Os referenciais que encontramos na obra de Antonio Gomide, com aproximações a algumas tendências internacionais, revelam sua inventiva pessoal, através de uma expressão de caráter estritamente pessoal. Ele não obedece a nenhuma teoria ou cânone. Esteve, sempre, em busca de um ideal estético e estilístico próprios. Sua vasta produção, em cuja essência está sua vontade e força criadora, o colocam, com destaque na História da Arte Brasileira, ao lado dos artista da primeira geração modernista. "A seriedade votiva, o amor adornante que alimenta pela sua arte, faz dele um místico da pintura. Não falo místico em relação aos assuntos que pinta, místico em relação à própria matéria plástica que para ele só pode ser bela quando séria, severa e bem pura (...) Gomide está entre os sujeitos de importância na arte viva do Brasil...". Esta primeira e muita elaborada análise feita por Mário de Andrade por ocasião da primeira exposição, em 1927, fala da muita e boa obra de Gomide e continua válida ainda hoje.


Elvira Vernaschi
Historiadora e Crítica de Arte
Membro da ABCA/AICA
Setembro/2001