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São Paulo, Brasil
11/06/2016 - 09/07/2016

A arte de Macaparana é essencialmente brasileira, embora se situe no polo oposto ao bra- sileirismo de nossa arte modernista, que versava temas nacionais. Digo que sua arte é brasileira porque ela decorre de um outro processo estético, que começou no Brasil com a introdução da arte concreta, em começos da década de 1950 Essa arte, que era essencial- mente universalista — já que a base de sua linguagem era a geometria — que nada tinha de nacional ou regional, significou uma ruptura com a tradição modernista brasileira, represen- tada por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, entre outros, passando por Segall e Portinari. O concretismo, com sua linguagem geométrica, abre um novo caminho para as artes plásticas brasileiras mas, ao mesmo tempo, conduz a um impasse que dará origem ao neoconcretismo. É que, ao romper com as normas concretistas, o neoconcretismo introduz na arte construtiva opções outras, diversas das que apontava a estética da Escola de Ulm. A inovação básica do neoconcretismo foi eliminar o quadro como elemento básico da linguagem pictórica. Ele é violentado e substituído pelo que os neoconcretistas chamavam de não- objeto. Em que pese à originalidade da arte de Macaparana — cuja contribuição própria é indiscutível — ela não teria nascido se os neoconcretos não tivessem mudado fundamentalmente a função do quadro como suporte da linguagem pictórica. Nasce aí, por assim dizer, uma nova linguagem. Em que consiste essa nova linguagem? No fato de que o quadro deixa de ser o lugar onde a linguagem da pintura acontece para ser ele mesmo essa linguagem. Por essa razão, ele muda de forma já que fazer arte, agora, é reinventá-lo, fazer dele o objeto da arte. Ao dizer isto, estou evidentemente falando de Lygia Clark, de Willys de Castro mas também de Macaparana, herdeiro desse novo caminho aberto à arte por artistas brasileiros. Outra herança, presente na obra de Macaparana, é a geometria — as linhas retas, os retângulos, os hexágonos, como também formas inventadas, uma geometria outra, que tampouco se confunde com a figura abstrata sobre o espaço do quadro: não, a geometria, neste caso, é a obra mesma, a placa de madeira com a forma que o artista lhe dá. Vejam bem: estou dizendo que a arte geométrica, no Brasil, realizou uma revolução que, seguindo essa linha, deixou de fazer pintura e passou a inventar com as cores e as formas geométricas um universo outro, uma geometria outra, de que a arte de Macaparana é exemplo notável.

Ferreira Gullar, “Um caminho novo”, 2016