São Paulo, Brasil
28/03/2026 - 25/06/2026
Máscaras
Ivald Granato – Quem é você?
Era o final da década de 1990 e o eterno rebelde Ivald Granato chegava à maturidade. Trinta e cinco anos de participações em mostras coletivas, individuais e
premiações deram a ele um lugar de destaque na cena artística brasileira. Talentoso desenhista e pintor, ele havia transitado pelos “ismos” e pela Pop Art em estreita
sintonia com seu tempo. A propósito, dizia: “Conheço as
técnicas e as finalidades básicas da pintura. Posso fazer telas expressionistas, fauvistas, impressionistas ou em qualquer tendência mais recente. Por isso, transformei minha pintura num ato irônico sobre isto que conheço.
Pintar, para mim, é exercitar o ato de criar.” Com esse comentário, Granato mostrava estar ciente de que o fazer arte se tornara algo totalmente permissivo, condição que o crítico Mário Pedrosa identificou como pós-moderna e o
poeta Haroldo de Campos como pós-tudo. Sem ilusões, o artista se rendia à necessidade de criar. Pintava rápido, sem esboços. Em ataque direto à tela, assumia o
automatismo gestual de raiz surrealista, produzindo uma
figuração cinestésica de intenso colorido. Sua pintura é pura energia; sua figuração por vezes assemelha-se ao Ivald Granato. Apud Frederico de Moraes. In Da coleção: os caminhos da arte brasileira. São Paulo. Júlio Bogoricin Imóveis, 1986.
grafite, fazendo referência ao cotidiano, a seres híbridos e
fantásticos, ao erotismo.
Premiado como o melhor desenhista em 1979 e 1982
pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), tendo sua pintura exibida em mostras internacionais, foi na performance que Granato pôde dar vazão a seu temperamento inquieto. Queria ser reconhecido por sua ousadia e liberdade de ação. Pioneiro nesse campo de atuação, fez incontáveis apresentações performáticas,
muitas delas documentadas por fotografias e vídeos. Em 1978, convocou os amigos para o happening Mitos vadios,
uma paródia crítica à 1a Bienal Latino-Americana de Arte
de São Paulo. O evento, realizado em um estacionamento
da rua Augusta em São Paulo, que contou com a adesão de Hélio Oiticica, Marta Minujín, Claudio Tozzi, Gabriel Borba, Regina Vater e muitos outros, entrou para a
história. Na década de 1980, atuou na Banda Performática liderada por José Roberto Aguilar e seguiu
surpreendendo o público com suas provocações em museus, palestras e nas ruas da cidade.
Na vida, como na arte, Granato incorporou o caráter disruptivo da performance, com toques de ironia e crítica social. Segundo o artista, seu casamento em Campos dos
Goytacazes, cidade natal, foi sua primeira performance.
Dali partiu para o Rio de Janeiro onde obteve sua formação. Mais tarde, estabeleceu-se em São Paulo,
casou-se novamente, e fez de seu ateliê – na esquina das Avenidas Rebouças e Henrique Schaumann – um ponto de encontro dos artistas de sua geração. Sua vida agitada
combinava com o ritmo da cidade. Queria estar sempre no centro dos acontecimentos. Isso exigia estar em permanente atividade.
Em 1990, mudou-se com a esposa Laís e os filhos para uma casa espaçosa no Alto de Pinheiros. Aos poucos, foi transferindo seu ateliê para lá. A filha Alice nos conta que
a família “vivia num grau de intensidade absurdo, pois estava dentro dos processos que se formavam ali”.
Apesar da agitação que o artista promovia, é provável que no íntimo indagasse qual das suas muitas personas seria sua verdadeira identidade. Essa inquietação o levou a uma passagem crucial em sua carreira: por um tempo, abandonou seu habitual trato das questões da
contemporaneidade para mergulhar na busca de valores de seu passado e de sua ancestralidade. Essa anamnese promoveu o resgate de lembranças de infância como
meio de reconexão com sua origem e a memória cultural do país. O crítico Jacob Klintowitz, que há anos
acompanhava o trabalho de Granato, observou comportamento do artista em seu momento de
introspecção: “Primeiro, ele brincou com o assunto, lembrou-se sarcasticamente dos seus carnavais, dos blocos de sujos e dos Clóvis, manifestação teatral popular
em que um anônimo mascarado invectiva um popular qualquer e lhe diz coisas. E, finalmente, Ivald Granato configurou máscaras ancestrais e imaginárias e aí a sua
atitude foi de profunda reverência. O artista fez uma longa viagem na qual encontrou-se, ao final, com o
misticismo.”
Começou produzindo, em 1998, uma série de pinturas sobre papel que chamou The Mask e, na sequência, pintou obras mais ambiciosas reunidas na série Quem é você – The Mask. Para Granato, as máscaras são anotações visuais de rostos que faziam parte de seu
imaginário. A pintura dessas máscaras funcionou como
via de acesso a um mundo de sua infância e juventude.
Seu histórico familiar vem corroborar sua origem
miscigenada: “De família muito humilde por parte de mãe
e de classe média por parte de pai, dentista de ascendência siciliana, Granato tinha tios maternos
artesãos e uma mãe doceira de mão-cheia. De origem mestiça, negra e indígena, e com forte espírito realizador, dona Rosinha fazia arte com as mãos. Além dos doces, costurava, bordava, pintava louças e fazia até partos. Sua expansiva forma de comunicação a ligava intrinsicamente ao filho caçula, Ivald.” Esse depoimento de Alice sobre a avó revela as raízes indígena e afro-brasileira do pai e sugere que, possivelmente, Granato teria herdado o talento criativo de sua mãe.
A cidade onde nasceu, no norte fluminense, Campos dos Goytacazes faz, no nome, referência à etnia que outrora habitava as margens do rio Paraíba do Sul que cruza a região. Antes do boom econômico decorrente da extração
de petróleo em seu litoral, o município de Campos tinha
na produção de açúcar e aguardente e na criação de gado
seu sustentáculo desde a época colonial. Desse tempo, sobreviveu um rico folclore que conta com os Bois Pintadinhos, personagens dançantes considerados Bois de
Samba, que saem no carnaval, e a festa de Mana-Chica do Caboio, que reúne elementos das culturas indígena, portuguesa e africana em dança semelhante à quadrilha.
Essas manifestações populares, com certeza, ficaram em seu imaginário e serviram de inspiração às caras que Granato começou a pintar em 1998. Esse conjunto traz
figuras clownescas que parecem ter saído do universo infanto-juvenil.
Depois dessa primeira incursão ao passado, Granato voltou-se para a ancestralidade africana, força subjacente na cultura brasileira, hoje cada vez mais reconhecida. Na
série cujo título indaga Quem é você, vemos uma sucessão de estranhas caras emergirem de um fundo escuro. Com a colaboração do Acervo Ivald Granato
pudemos confirmar que essas pinturas são inspiradas em
máscaras tribais, algumas delas reproduzidas no livro
African Masks da coleção Barbier-Mueller de Genebra,
publicado em 1998, encontrado na biblioteca do artista.
Para fazer esse contraponto, recorremos ao empréstimo
de alguns exemplares originários da África, cuidadosamente preservados nas coleções de Christian-Jack Heymès e da família Mastrobuono formadas ao
longo das décadas de 1960 e 1970.
A força das máscaras africanas é inegável. Como percebeu Picasso, a arte negra impressiona e não só por confrontar a estética naturalista, mas por ter na origem uma função
mágica; ele viu as máscaras como instrumentos de comunicação. De sua visita ao velho Museu Etnográfico do Trocadéro, em Paris, ficou em sua lembrança o cheiro
repugnante que aquelas peças acumuladas exalavam e seu aspecto assustador. Apesar do desconforto, ficou atraído pelo estranhamento que provocavam. “As máscaras não eram como quaisquer outras esculturas. De forma alguma. Elas eram coisas mágicas. […]. As peças
negras eram intercesseurs; desde então eu aprendi esta palavra em francês. Elas eram contra tudo – contra espíritos desconhecidos, ameaçadores. Eu olhava o tempo todo para esses fetiches. Até que entendi: eu também sou contra tudo. […] Eu entendi por que era um
pintor. Completamente sozinho, naquele museu assustador, com máscaras, bonecas dos peles vermelhas, manequins empoeirados. Les Demoiselles d’Avignon deve ter me ocorrido justamente naquele dia, mas jamais por causa das formas: porque tratava-se da minha primeira
pintura de exorcismo. Sim, absolutamente!”
No caso de Granato, a atração por essa iconografia, tão
estranha aos códigos ocidentais, veio da busca de suas raízes culturais e do desejo de afirmação identitária. Tal como aconteceu com Picasso, não foram os valores
formais que o seduziram, inicialmente, mas o reconhecimento da força simbólica das máscaras.
Klintowitz qualificou sua atitude frente a elas como sendo
de “extrema reverência”. Vale lembrar que, tradicionalmente, as máscaras não são apreciadas como
objetos puramente estéticos, elas exercem funções: são usadas em contextos ritualísticos voltados para curas, cerimônias de iniciação, funerais, festas, ritos
propiciatórios da colheita e da guerra. Nessas ocasiões, colocadas sobre os rostos ou no topo das cabeças de certos membros da comunidade, elas incorporam
entidades religiosas. Os mascarados – usando costumes de fibras naturais e portando adereços feitos de peles, chifres, penas, conchas etc. – dançam e praticam gestos
simbólicos conforme certas convenções. Essas atuações,
guardadas todas as ressalvas,encontram ressonância nas práticas performáticas de Ivald Granato, atividades que atravessaram toda sua carreira e o fizeram reconhecido.
Maria Alice Milliet
Curadora
São Paulo, fevereiro de 2026
