Biografia


Fortaleza, Brasil , 1922 —
Paris, França, 1967

Na obra de Antonio Bandeira, a abstração informal estrutura-se a partir de uma rigorosidade construtiva exemplar: um ritmo vivaz conduz o olhar e o sentimento do observador por uma rica ordem interna a compor-se e decompor-se ali mesmo, no aparente caos pictórico que expressa a força plástica do pintor.

Nascido em Fortaleza, em 1922, Bandeira realizou seus primeiros estudos em desenho e pintura de forma autodidata. Engajado na renovação da cena artística local, fundou em 1941, junto dos artistas Mário Baratta, Raimundo Cela e Aldemir Martins, o Centro Cultural de Belas-Artes (CCBA), onde apresentou sua primeira exposição, em 1943. Após um breve período morando no Rio de Janeiro, em 1945 Bandeira recebeu uma bolsa da Embaixada Francesa e mudou-se para Paris no ano seguinte. A partir de então, inicia-se um frutífero e longo relacionamento entre o artista cearense e a capital francesa. O constante contato com artistas da vanguarda parisiense do pós-guerra como Georges Mathieu, Camille Bryen e Wols, refletiu decisivamente na obra do pintor, que de forma natural afastou-se da estética figurativa expressionista em favor da linguagem abstrata. É dessa época a obra Natividade (1949), na qual figuras como árvores, casas e uma escadaria que estabelece o eixo vertical da tela perdem sua definição e significado, fragmentam-se na malha triangular e na chuva de cor a que nem o régio sol vermelho, cearense, mantém-se incólume.

Dessa forma, dentre as obras dos anos 1950 estão paisagens organizadas por esquemas lineares horizontais e verticais entremeadas a manchas, espatuladas e espirros de tinta que, não obstante guardem a espontaneidade do gesto, inserem-se em uma cadenciada composição que geralmente direciona para o centro da tela o ponto focal de tensões, embates e resoluções das forças plásticas mobilizadas. Todavia, mantendo no título das obras uma entrada semântica representacional, Bandeira expressa seu desejo de preservar uma relação referencial com a natureza, com a materialidade do mundo. O resultado dessa pesquisa é o delineamento da expressão como decantação pictórica do mundo desde a interioridade do artista, algo que é possível notar em trabalhos como Casas londrinas (1955), A árvore (1955) e A grande cidade (1957).

Os mundos plasmados por Antonio Bandeira, a um só tempo efêmeros, embaralhados ou explosivos, mas com notável força e tendência estruturais, despertam o observador para o processo íntimo de autodescobrimento e mergulho na confluência da percepção com o psiquismo.

G.G.S.