Carlos Cruz-Diez

capacruzdiez

Caracas, Venezuela, 1923 —
Paris, França, 2019

A obra de Carlos Cruz-Diez oferece a plenitude conceitual e sensorial da cor ao focar em seu caráter circunstancial, apresentando-a como acontecimento efêmero, como relação entre luz e observador.

Cruz-Diez iniciou seus estudos por volta de 1940, na então Escola de Belas-Artes de Caracas. Durante sua formação, o artista realizou apenas trabalhos figurativos, atendendo aos requisitos acadêmicos da época. Entretanto, o uso da cor já o instigava desde esse período inicial. Por que o ato de pintar limitava-se à aplicação de pigmento sobre uma superfície? Haveria outras formas de pintar? Outras formas de colorir? Tais questões motivaram Cruz-Diez a travar intenso contato com a história da arte, a anatomia, a óptica e a psicologia, desenvolvendo uma pesquisa que remonta desde as descobertas de Isaac Newton e dos impressionistas até a incorporação de elementos tecnológicos contemporâneos como os meios gráficos de impressão, o uso de novos materiais industriais e o recurso ao vídeo e à iluminação artificial.

É especialmente a partir da segunda metade dos anos 1950 que o artista venezuelano passou a materializar suas investigações, classificando-as de acordo com o tipo de fenômeno abordado e de descoberta realizada. A série Couleur Additive surpreende com o aparecimento de cores a partir de um fenômeno óptico que dispensa a tinta: sobre a tela, a cor amarela surge entre uma linha pintada com tinta verde e uma linha pintada com tinta vermelha. Não há tinta amarela na tela, mas há a aparição da cor amarela na retina do observador. Interação semelhante ocorre na reflexão e subtração de cores da série Physichromie, que começou a ser desenvolvida em 1959.

Tais trabalhos expressam o papel fundamental do público para Cruz-Diez. As obras do artista não dão licença à passividade contemplativa e requerem o movimento do observador para se realizarem, algo que fica ainda mais evidente nos trabalhos ambientais que foram concebidos desde 1965 e montados apenas a partir de 1968. Tais obras, denominadas pelo artista de Chromosaturation, constituem-se por cômodos formados por placas translúcidas de acrílico vermelho, verde e azul ou por espaços brancos cuidadosamente iluminados com essas mesmas cores. Dentro desses cômodos, a proposta é apenas estar, andar, respirar, deitar. Ali não é preciso disciplinar-se para uma atenção especial, que surgirá espontaneamente enquanto o indivíduo é deslocado para a experiência temporal da percepção, diferente da temporalidade da vida corriqueira mas correndo incessante em seu subsolo.

Fazendo-se e desfazendo-se diante do participante, as cores apresentadas por Cruz-Diez estão em constante movimento e conectam-se intimamente ao deslocamento espacial do próprio participante: animados pelo devir da cor, movem-se os órgãos perceptivos, os sentimentos, as emoções e as reflexões, estabelecendo um intercâmbio cinético que é na verdade um despertar fenomenológico capaz de abrir o indivíduo para um novo mundo, para a possibilidade de um outro real.

G.G.S.