Bensberg, Alemanha, 1967

Dentre os vários materiais que incrementaram o alcance da ação humana no mundo, o ferro talvez seja um dos mais paradoxais. O ferro é resistente e maleável, pesado e leve, impassível e condutor. Sua extração é violenta, quase sempre oblitera montanhas inteiras. Seu beneficiamento inclui sucessivas mudanças de estado físico. Por fim, uma vez combinado ao carbono, ao tungstênio ou ao zinco sob a forma de híbridos poderosos, ele desempenha trabalhos delicados nas mãos das costureiras e nas mesas de cirurgia, assim como flutua, extremamente pesado: faz-se navio, avião, porta-mísseis, satélite. É justamente essa natureza complexa que encontramos canalizada de modo flagrante na poética de Knopp Ferro, artista cujo pseudônimo revela a importância que esse metal assume em sua pesquisa estética.

Possuindo uma importante produção dentro do contexto experimental que caracterizou o teatro e a performance nos anos 1970, Knopp Ferro voltou-se desde 2003 à criação de obras que constituem entre si um jogo de remissões contínuas: seus desenhos são como projetos de seus relevos que, por sua vez, são como maquetes de objetos que se encontram no limiar perceptivo entre a tridimensionalidade e a bidimensionalidade, entre a escultura e, finalmente, o desenho. Formados por longas hastes metálicas pintadas inteiramente numa só cor — seja ela preto, branco, vermelho, amarelo ou qualquer outra — eles se organizam em propostas variadas de ativação do espaço e de relações a serem estabelecidas com ele.

Esculturas como E Objekt 22:14 (2015), Construction 16:34 (2016) e Fuge 18:52 (2016) apresentam-se sobre bases definidas. Portanto, não devem ser consideradas como objetos outros senão esculturas. Também o título de cada uma dessas obras nada tem de representativo, expressando apenas uma ideia e o tempo que o artista levou para consolidá-la. Tais circunstâncias, que tendem a gerar um distanciamento do mundo, confrontam-se com a aparência mesma das esculturas, que ainda podem nos lembrar de algumas formas pacíficas: árvores, andaimes, bambuzais ao vento. Como se fossem algo conhecido e prestes a se desfazer, deixando para trás apenas um esqueleto tênue e uma presença familiar, elas induzem a um passeio por seu entorno e, nessa vivência, revelam um espaço que se contrai e se dilata conforme a distância que se toma da obra, o ângulo pelo qual ela é observada, o tempo que se dispõe com ela.

Os móbiles de Knopp Ferro jogam de modo ainda mais intenso com a percepção espacial. Neles, centenas das hastes afiadas e em comprimentos diversos, perfilam-se rumo à amplitude que lhe é reservada pelos espaços expositivos, dando corpo a verdadeiros rizomas aéreos. Grandes trabalhos como o móbile Linienschiff Kap 22:26 (2016) rotacionam muito suavemente. Imersos no espaço aparentemente vazio, são como ponteiros ultra-sensíveis indicando a presença de uma substância etérea. Observando-se esses móbiles de Ferro, experimenta-se um objeto tridimensional que insiste continuamente em habitar a bidimensionalidade. De fato, essa diferença perceptiva sutil entre profundo e plano chega quase a ser satirizada em obras como o trio Yellow 21:46, Red 22:26 e Blue 18:07 (2016), em que as hastes metálicas são fixadas sobre chapas coloridas compondo um objeto de apreciação multidimensional.

Essas viagens interdimensionais propostas pelas obras de Knopp Ferro nos levam a uma zona onde encontramos os esforços estruturais de Antonio Bandeira e Jackson Pollock e onde resta pouca diferença entre um móbile com mais de 5 metros de altura, como Linienschiff Raum 23:14 (2013), e um desenho diminuto como Cana 18:10 (2015) ou um relevo em papel como a obra Messerzeichnung #57 (2008). Para voltar dessa viagem, basta dar um passo ao lado ou rotacionar um pouco a cabeça. Esse é, contudo, um retorno muito breve, pois em segundos Ferro nos alça ao próximo voo.

 

G.G.S.