Miguel Chevalier

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Biografia


Cidade do México, México, 1959

Mais do que o inesgotável uso do artifício digital, encontramos invariavelmente nas criações de Miguel Chevalier uma aura misteriosa que remete aos magos de todas as eras. Pois sua obra guarda sempre um poder de investir o virtual de uma agência nele nem sempre pressentida, capaz de forjar espaços imaginários incorporados aos espaços extensos e de infundir vida a naturezas outras que parecem se desdobrar por virtude de um alvitre próprio, livres daquele que outrora as imaginara.

Chevalier principia essa aventura sem fim de fazer do digital medium das ambições da imaginação artística já nos primórdios dos anos 80, quando computadores ainda ocupavam salas inteiras. Desde então seu trabalho se desenvolve na temporalidade própria da técnica digital, incorporando suas sempre transformadoras potências a fim de dar fôlego a uma forma de arte que busca exceder os confins de seus temas e envolver seus fruidores de maneira a torná-los elementos vivificadores da própria obra. Deste modo, é de se ressaltar, entre inúmeras incursões, a renovada abordagem que Chevalier confere ao mundo natural. Não mais limitando-se a representá-lo, o artista se utiliza do artifício técnico para criar naturezas segundas, paradoxais reminiscências de nosso mundo natural. São obras assim suas séries de Habiers, uma coleção de plantas virtuais que nascem de “sementes digitais”, vivem seu esplendor multicolor e fenecem de acordo com um “código morfogenético” programado pelo artista; ou ainda instalações como Sur-Natures e Ultra-Nature, nas quais as flores interagem com os espectadores, que, à guisa do guardião dos ventos Éolo, as fazem balançar e bailar ao sabor dos gestos. Os mesmos princípios são aplicados também às diversas Fractal Flowers, flores que desabrocham regidas pela autossemelhança das formas da geometria fractal e que, flagradas em um momento imponderável, são transubstanciadas de repente, por efeito da tecnologia de impressão 3D, em corpo sólido, recebendo então palpabilidade e permanência.

Congregado a esse naturalismo do artifício cujo objeto são naturezas sonhadas, a obra de Chevalier carrega o indiscutível efeito de produzir o maravilhoso ao transformar o espaço através do virtual. Essa força secreta age plena em seus Magic Carpets, projeções luminosas sobre os pavimentos que se moldam aos espaços arquitetônicos para transformá-los, envolvendo no espetáculo de imagens e cores aqueles que atravessam esses tapetes encantados. Acontecimento semelhante produzem os Digital Arabesques, variações dos Magic Carpets que encontram na geometria dos arabescos islâmicos inspiração para um balé de formas luzentes. Essa interação e reformulação do espaço arquitetônico dá-se ainda através de projeções sobre as fachadas de edifícios, como no caso de versões monumentais das Sur-Natures, ou no uso imprevisto de elementos arquitetônicos de um ambiente particular para produzir um fragmento inesperado do universo, como em Digital Supernova 2019, que transformou as abóbadas góticas da Catedral de Notre-Dame em Rodez em insondadas cartografias celestes.

Mas, para além do emprego do virtual como instância criadora e transformadora do espaço, o trabalho de Chevalier também se move na direção contrária ao desvelar aquelas presenças virtuais já aderentes ao que é concreto. Isso faz-se presente em uma série de obras reunidas sob o nome de Meta-Cities nas quais o artista abstrai as megalópoles de sua presença física para reter suas imagens em seus fluxos de transporte, dados e trocas em tempo real que apontam para um repensar do espaço urbano. Essa atenção às estruturas recônditas do mundo atual também é encontrada nas diversas instalações La Vague des Pixels, nas quais o artista tematiza o próprio digital através de metarreferências aos seus elementos constitutivos e à sua simbologia matemática, de modo que os pixels dos painéis se agitem capturados pelos movimentos dos espectadores.

Assim, a obra de Miguel Chevalier em todos os seus processos, nas suas culminações imaginativas e abstrativas nos permite superar a pretensa oposição entre virtual e real, elevando à evidência sensível a tessitura invisível que reveste nossos dias, esses fluxos e redes de zeros e uns que conferem a medida e a velocidade do nosso tempo ao mesmo passo que criam e geram, em sua dinâmica incessante, o nosso modo de ser.

 

V.R.P