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Biografia


Farnese, Itália, 1894 —
São Paulo, Brasil, 1955

Dentre as produções de vulto que constelam o movimento modernista brasileiro, a escultura de Victor Brecheret talvez seja o melhor exemplo de que a beleza aproxima-se da verdade.

Formado em Roma durante a década de 10, suas obras iniciais  são profundamente influenciadas por Rodin e Meštrović. Trabalhos como Eva e Ídolo (ambos de 1919), expostos na Semana de 22, evidenciam um pleno domínio da técnica escultórica aplicada em uma representação naturalista da anatomia humana, na qual os jogos de sombra e luz se conjugam à musculatura tensa e às torções corporais  para conferir às figuras uma contida dramaticidade. Nos anos 20 Brecheret retorna à Europa, desembarcando desta vez em Paris. Impactado pelas inovações vanguardistas, em especial por aquelas do cubismo e do art decó, a dramaticidade inicial da obra cede lugar a uma maior estilização das linhas e à síntese formal, como é maravilhosamente exemplificado na Pietá representada na obra Mise au Tombeau (1923-1927), que pode ser vista no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Após o restabelecimento do artista no Brasil, sobretudo a partir dos anos 40, as esculturas de Brecheret passam a incorporar temáticas nativistas e primitivistas quando o artista se volta à religiosidade e cultura indígenas.  Alguns dos trabalhos deste período tendem à abstração, como O índio e a suaçuapara (1951), enquanto em outros o escultor inscreve em pedras arredondadas gravuras e grafismos, como A índia escondida por um grande peixe (1947-1948).

Talvez a mais conhecida obra de Brecheret seja o Monumento às Bandeiras de 1921, cuja construção se estende de 1936 a 1953. Neste trabalho, de imensas proporções, são sintetizados elementos de toda a sua carreira. O escultor talha no granito, com linhas estilizadas e de grande síntese formal, figuras que alegorizam as campanhas dos bandeirantes paulistas nos sertões. Estão ali representados  indígenas, negros  e brancos em uma simbolização da formação social do Brasil, rementendo-nos à dolorosa herança da colonização.

Por todas essas razões, apesar de sua origem italiana, Brecheret é um modernista brasileiro no mais pleno direito. Afinal, sua obra constitui uma das primeiras expressões de ruptura no cenário nacional com a arte acadêmica. Mas, muito além disso, Brecheret realiza exitosamente a antropofagia ao incorporar a novidade estrangeira para gerar algo genuinamente brasileiro. Pois sua grande matéria é, ainda que por vezes mítico e lendário, o passado do Brasil. Nisso sua obra se torna monumental, uma vez que nela o passado se revela como fonte de ação, reparação e aspiração. Assim, descobre-se o passado como potência inesgotável que desafia o futuro, enquanto este renova o passado  ao projetá-lo sempre para além do mero já acontecido.